segunda-feira, 3 de novembro de 2025

 

QUANDO ELES CHEGAM

(Fábula infanto-cruel-juvenil)

 Luís Pimentel

 

     A fumaça chega na frente.

     Logo vem o cheiro da fumaça e a escuridão que ela traz.

     E vem a tosse.

     O aperto no peito.

     O cheiro da fumaça é um dos piores que a gente pode sentir.

     Minha mãe diz que é cheiro de morte.

     Só sei que é cheiro de medo.

 

     Depois vem o barulho que provoca a fumaça e fazem doer os ouvidos. Já conheço ele.

     Minha mãe me põe no colo e me aperta contra o peito.

     Meu pai encosta as mãos em meus ouvidos, para que eu não escute nada. Não adianta, eu escuto tudo.

     E sei muito bem do que se trata.

 

     Hoje minha mãe não saiu de casa para fazer faxina. Disso eu gosto.

     Meu pai também não saiu para trabalhar na obra. Disso eu gosto também.

     Meu irmão mais velho não foi para a escola. Não gosto disso, pois ele não tem o que fazer e fica em casa me zoando.

    

     O chefe de não sei o quê mandou fechar tudo: as lojas, os bares, farmácias, padaria – justo na hora que minha mãe ia comprar o pão pra gente tomar café.

     Minha mãe diz que ela é a chefe da casa.

     Meu pai diz que é o chefe da família.

     Tem chefe pra tudo.

     Quero ser chefe de alguma coisa também, mas ainda não sei de quê. Dos meus bonecos, talvez?

 

     Mas o pior mesmo é quando eles chegam.

     Chutam a porta, invadem a casa, mexem nas panelas, bagunçam as costuras de minha mãe, procuram armas na marmita do meu pai, na caixa de ferramentas, vasculham até a mochila do meu irmão.

     Gritam! Gritam! Gritam!

     Perguntam. Perguntam. Perguntam.

     Quem são eles? Onde estão? Para onde foram? Quando voltam?

     Meus pais não sabem o que responder.

 

     Lá fora a fumaça continua fumaçando tudo.

     Também continuam os tiros, os gritos, o choro.

     Os ouvidos doem ainda mais.

 

     E do jeito que chegam eles vão embora, entre vivas e sorrisos.

     Agora o barulho dos carros e tanques e caveirões partindo.

     Meu pai e minha mãe saem de casa, vão ajudar os vizinhos a juntar corpos. Um ao lado do outro, que nem eu faço quando brinco com os meus bonecos.

     O filho de Dona Olinda. A filha de Seu Prazeres. O pai da Felicidade. O irmão da menina Pureza, que é amiga de meu irmão.

     Minha mãe chora.

     Meu pai chora também.

 

     Meu irmão cata os objetos que eles jogaram no chão e rearruma a mochila, mesmo sabendo que não vai para a escola hoje.

     Nem amanhã.

     Não sei o que dizer. Nem pensar. Sou pequeno e ainda não preciso dizer nada, por enquanto.

     Meus pais olham para mim e para o meu irmão.

     Nos abraçam.

    

     Minha mãe está ajoelhada e faz uma oração.

     Meu pai está organizando as coisas do trabalho dele.

 

 

     A vida vai se chegando de mansinho, ainda meio medrosa e desconfiada.

     Sabe que precisa deixar viver.

     Antes que eles voltem.